Exames preventivos para mulheres: quais fazer e quando começar
- Dra. Thaísa Bramusse

- há 1 dia
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Vou te contar um dado que me incomoda todo dia no consultório: a maioria das mulheres não faz a menor ideia de quais são os exames preventivos para mulheres e quando começá-los. Boa parte não lembra quando fez o último Papanicolau.
A prevenção em saúde feminina não é assunto para "quando tiver tempo" ou "quando aparecer algum sintoma". Aliás, o problema é exatamente esse: muitas das doenças que mais matam e comprometem a qualidade de vida das mulheres não apresentam sintomas no início. E é justamente por isso que os exames preventivos para mulheres são indispensáveis.
Por que os exames preventivos salvam vidas?
O conceito médico por trás do rastreamento preventivo é simples e poderoso: identificar doenças, ou condições precursoras, antes que causem um dano irreversível. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o diagnóstico precoce da doença pode aumentar em até 90% as chances de cura em vários tipos de câncer.
O mesmo princípio vale para doenças cardiovasculares, diabetes, osteoporose e disfunções hormonais. O corpo costuma compensar e mascarar alterações por anos antes de o sintoma aparecer. Quando aparece, frequentemente já não estamos mais falando de prevenção, mas de tratamento.
Os exames preventivos para mulheres por fase da vida
A seguir, eu organizei os principais exames preventivos por categoria e faixa etária, com base nas diretrizes da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), do Ministério da Saúde e da American Cancer Society.
Rastreamento oncológico
Papanicolau (citologia cervical)
Detecta lesões precursoras do câncer de colo do útero, causadas principalmente pelo HPV. Deve ser iniciado aos 25 anos, com repetição a cada três anos, após dois exames anuais consecutivos normais. Mulheres acima de 65 anos, com histórico de exames normais, podem considerar suspender, conforme orientação médica.
Mamografia
Rastreamento do câncer de mama. A recomendação padrão é iniciar aos 40 anos, com periodicidade anual. Mulheres com histórico familiar de primeiro grau ou mutações genéticas (BRCA1/BRCA2) devem iniciar mais cedo e com acompanhamento especializado.
Colonoscopia
Rastreamento do câncer colorretal. Indicada a partir dos 45 anos para população geral, repetida conforme a orientação médica. Histórico familiar da doença antecipa o início para os 40 anos ou 10 anos antes do diagnóstico do familiar acometido.
Autoexame e ultrassom de mama
O autoexame mensal não substitui a mamografia, mas é um hábito complementar valioso para conhecer as mamas e perceber alterações. O ultrassom é indicado como complemento à mamografia, especialmente em mamas densas, condição comum em mulheres jovens.
Saúde cardiovascular e metabólica
Doenças cardiovasculares são a principal causa de morte em mulheres no Brasil, superando o câncer. O rastreamento metabólico é, portanto, tão urgente quanto o oncológico.
Glicemia de jejum e hemoglobina glicada
A partir dos 35 anos, ou antes em mulheres com sobrepeso, histórico familiar de diabetes ou síndrome dos ovários policísticos. Se você tem dificuldade para emagrecer, esses exames são ainda mais prioritários, pois a resistência insulínica frequentemente passa despercebida por anos.
Perfil lipídico (colesterol total e frações, triglicerídeos)
A cada cinco anos para mulheres sem fatores de risco, com maior frequência em casos de hipertensão, diabetes ou histórico familiar.
Pressão arterial
Monitoramento anual a partir dos 18 anos, é simples e com impacto direto na prevenção do infarto e do AVC.
Ácido úrico, função renal e hepática (TGO, TGP, creatinina)
Incluídos no check-up anual a partir dos 30-35 anos, especialmente em mulheres com sobrepeso ou uso regular de medicamentos.
Importante: Estes são exames gerais, mas é fundamental que você passe por uma avaliação individualizada, para personalizar seu acompanhamento, com exames específicos conforme seu histórico médico e familiar.
Saúde óssea
A osteoporose é uma doença silenciosa e afeta desproporcionalmente as mulheres após a menopausa, quando a queda do estrogênio acelera a perda de massa óssea.
Densitometria óssea
Indicada para todas as mulheres a partir dos 65 anos. Entre 50 e 64 anos, é recomendada para quem apresenta fatores de risco como histórico de fraturas, uso prolongado de corticoides, tabagismo ou baixo peso. Mulheres na menopausa precoce devem realizar o exame assim que entram na transição menopausal.
Saúde da tireoide
A tireoide é a glândula que mais silenciosamente sabota a saúde feminina. Mulheres têm até 8 vezes mais chances de desenvolver disfunções tireoidianas do que homens, e os sintomas, quando aparecem, costumam ser confundidos com estresse, depressão ou envelhecimento natural.
TSH (hormônio estimulante da tireoide)
Primeiro exame a ser solicitado para rastreamento de disfunções tireoidianas. Recomendado a partir dos 35 anos, com repetição a cada cinco anos se normal, e antes disso em caso de sintomas ou histórico familiar.
T4 livre e T3 livre
Complementam a avaliação quando o TSH está alterado, permitindo diferenciar hipotireoidismo clínico de subclínico.
Anticorpos anti-TPO e anti-tireoglobulina
Essenciais para identificar doenças autoimunes como a Tireoidite de Hashimoto, a causa mais comum de hipotireoidismo feminino no Brasil.
Erros no tratamento do hipotireoidismo começam frequentemente no diagnóstico tardio e reconhecer isso cedo faz toda a diferença nos resultados clínicos.
Saúde hormonal e perimenopausa

Esse é, sem dúvida, o capítulo mais subestimado da saúde preventiva feminina. E também o que mais gera alívio nas mulheres quando finalmente recebem uma resposta clínica para o que estão sentindo.
A menopausa é definida como a ausência de menstruação por 12 meses ou mais, com idade média de início aos 51 anos. Mas a perimenopausa, fase de transição que antecede a menopausa, pode começar a partir dos 35-40 anos e durar entre 4 e 10 anos. Ou seja, uma mulher pode passar praticamente uma década vivenciando sintomas hormonais intensos sem que ninguém conecte os pontos.
Durante esse período, há uma queda progressiva e irregular na produção de estrogênio, progesterona e testosterona. O organismo feminino responde a essa montanha-russa hormonal com um espectro amplo de sintomas que, não raro, são atribuídos ao estresse, à ansiedade ou simplesmente ao "cansaço da vida moderna".
Os sintomas que merecem investigação
As queixas mais comuns na perimenopausa incluem:
Fogachos e ondas de calor pelo corpo;
Suores noturnos e alterações do sono;
Falhas de memória e dificuldade de concentração;
Dores de cabeça frequentes;
Baixo desejo sexual e ressecamento vaginal;
Queda de cabelo e ressecamento da pele;
Ansiedade, irritabilidade e desânimo sem causa aparente;
Baixos níveis de energia e fadiga persistente.
A queda hormonal também favorece o aumento de gordura corporal (especialmente abdominal), perda de massa muscular, elevação do colesterol LDL, maior risco cardiovascular e redução da densidade óssea.
Há ainda um dado que merece atenção especial: o estrogênio exerce papel protetor sobre as artérias coronárias e sobre a função cognitiva. Segundo a literatura médica, a redução na produção desse hormônio é um dos principais fatores que aumentam o risco de declínio cognitivo e doença de Alzheimer em mulheres, razão pela qual a investigação e o manejo hormonal adequado têm implicações que vão muito além do controle dos fogachos.
Esses sintomas devem ser avaliados por um médico, não normalizados como "coisa da idade".
Quais exames solicitar na investigação hormonal
A avaliação laboratorial da função hormonal feminina na perimenopausa inclui:
FSH e LH: avaliam o funcionamento ovariano e auxiliam no diagnóstico da transição menopausal;
Estradiol: principal estrogênio feminino; queda progressiva é marcador central da perimenopausa;
Progesterona: coletada na segunda fase do ciclo, indica se há ovulação adequada;
Testosterona total e livre: frequentemente negligenciada na mulher, mas com papel direto na libido, disposição, massa muscular e bem-estar emocional;
DHEA-S: hormônio adrenal com função metabólica e sexual relevante;
AMH (hormônio antimulleriano): marcador da reserva ovariana, independente da fase do ciclo;
Prolactina: quando elevada, pode causar irregularidades menstruais e impactar a libido;
Vitamina D: deficiência extremamente comum em mulheres brasileiras, com impacto direto na saúde hormonal, óssea e imunológica;
Ferritina e hemograma: rastreamento de anemia ferropriva, condição altamente prevalente em mulheres em idade fértil.
Sobre a reposição hormonal: o que a ciência diz
Quando os exames confirmam desequilíbrio hormonal e há indicação clínica, a terapia de reposição hormonal (TRH) é uma das estratégias mais eficazes para restaurar a qualidade de vida, proteger a saúde óssea, cardiovascular e cognitiva. As opções variam (géis, adesivos, cápsulas e implantes hormonais) e cada modalidade tem perfis de indicação específicos, baseados nas necessidades individuais da paciente e nos resultados laboratoriais.
É importante destacar que nem toda terapia de reposição hormonal é igual: o tipo de hormônio, a via de administração e a dose precisam ser individualizados por um profissional habilitado, a partir de uma avaliação clínica e laboratorial completa.
A reposição hormonal de estrogênio, quando bem indicada, pode transformar radicalmente a experiência do climatério, com melhora da energia, do humor, do sono, da composição corporal e da saúde a longo prazo.
Saúde da pele
Avaliação dermatológica anual
O câncer de pele é o mais incidente no Brasil, segundo o INCA. A avaliação com dermatoscopia digital permite mapear manchas e pintas com alta precisão.
Frequência mínima: uma vez ao ano, com maior atenção em fototipos claros e histórico de exposição solar intensa.
O erro mais comum que vejo no consultório
Mulheres que só procuram o médico quando algo dói, quando algum sintoma incomoda. A lógica parece razoável do ponto de vista do dia a dia, afinal, a vida é corrida e a agenda é sempre cheia. Mas do ponto de vista clínico, é uma aposta arriscada, pois a ausência de sintomas não é sinônimo de saúde.
Montar um calendário de saúde preventiva, com os exames organizados por faixa etária e frequência, é um dos primeiros exercícios que proponho às minhas pacientes. Não precisa ser complicado, mas deve ser consistente.
E se você não sabe por onde começar, uma boa consulta com um profissional de confiança para organizar esse mapa é o primeiro passo que você pode dar pela sua saúde.
Um abraço,
Dra. Thaísa Bramusse
CRM 50.338
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